sexta-feira, 4 de abril de 2014

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Os errantes do universo: Processo evolutivo

Houve um tempo em que era uma glória para todos nós andarmos por entre as florestas e campos, ouvindo os diversos sons proporcionados pela natureza. O cruzamento dos sons com as imagens produzia em cada um de nós uma torrente de sentimentos e emoções que levava-nos a criar novas coisas. A natureza era nossa ferramenta e ao mesmo tempo nossa inspiração. De tudo que nela havia tirávamos proveito. Tudo era aproveitado, mas nada era usurpado, pois respeitávamos os ciclos da natureza e sabíamos que éramos parte dela. Este respeito mútuo permitiu-nos entrar em contato com os mais profundos segredos da natureza. Nada era extraído contra a vontade. Se precisávamos nos agasalhar, os animais nos ensinavam a tirar proveito de suas peles. Se precisávamos comer, os seres dos diversos reinos se ofereciam para saciar nossa fome. Observando a natureza aprendíamos a nos reconhecer, respeitávamos as diferenças. Ao olharmos para nossos interiores aprendíamos muito sobre nós e respeitávamos melhor quem estivesse ao nosso redor, pois se percebíamos nossas fraquezas e virtudes, sabíamos que o outro não era superior ou inferior a nós e estava de alguma maneira em fase de descobertas também e por isto aproveitávamos para trocar idéias sobre tudo e isto enriquecia nossas experiências e inspirava nossos futuros passos.
Um dia nós perdemos este exercício! Deixamos de respeitar a natureza, começamos a achar que éramos maiores do que ela, que poderíamos dominá-la. Descobrimos que poderíamos ser mais poderosos do que ela e por fim, num reflexo natural, percebemos que o outro poderia ser dominado. E do respeito passamos para o medo. Passamos a temer o outro, passamos a achar que o outro não poderia saber nada sobre o que se passava dentro de nós. Descobrimos a desconfiança. Não olhávamos mais nos olhos do outro com medo de que ele percebesse nosso medo e nos dominasse. Passamos a nos concentrar não mais no crescimento interior, mas na conquista desesperada de maneiras e idéias que nos tornasse aparentemente superiores ao outro. Nos tornamos ricos e poderosos externamente. Já não nos avaliávamos pelo que éramos, mas pelo que temíamos que o outro poderia ser. As sombras da noite tornaram-se tenebrosas, macabras e descobrimos a morte. Agora éramos assassinos. O outro poderia ser morto sem necessidade de tirarmos proveito dele, bastava um gesto ou olhar estranho, um único movimento suspeito. Já não éramos irmãos, mas somente inimigos! A natureza tornou-se nossa escrava e escravizamos quem estava ao nosso lado. Achávamos que poderíamos usar exaustivamente tudo o que a natureza nos fornecia antes de bom grado. Passamos a criar animais e a plantar vegetais. O que crescia tão somente para o prazer imediato agora poderia ser degustado com volúpia e sem necessidade. Criamos a fome e a pobreza! Nos tornamos insaciáveis! Os animais fugiam de nós. Os pássaros agora só cantavam para alertar aos outros seres nossa aproximação. Uns se ofereciam em sacrifício para nós com o fim exclusivo de permitir que seus irmãos animais fugissem para lugar seguro. Tornamo-nos carnívoros sanguinários! Começamos a sofisticar nossas caças a fim de superar nossas deficiências frente aos animais. Criamos aos poucos aquilo que hoje chamamos de tecnologia. Com a tecnologia poderíamos matar tudo o que estivesse na nossa frente, inclusive a nós mesmos. Nossas obsessões transformaram-se em doenças. Nossas doenças passaram a se transmitir por gerações. Dos animais mortos sem necessidade vieram as doenças e elas se propagaram na medida em que nossa tecnologia se expandia e chamamos a isto de progresso.
Os vegetais apodreciam nos pés vítimas de pragas antes inexistentes, pois eles agora eram plantados aos montes com pesticidas, mas muito além de nossas reais necessidades. Os vegetais ficaram sem nutrientes e trouxeram mais doenças. Os solos começaram a se esgotar e geraram mais doenças. As doenças cresciam e nós resolvemos que era hora de curá-las. Olhávamos ao que acontecia e concluíamos como poderíamos nos salvar das doenças. Aperfeiçoamos nossos métodos de análise até que conseguíssemos debelar esta ou aquela doença, nossos olhos se tornavam cada vez mais aguçados com a ajuda de instrumentos cada vez mais sofisticados. Nós conseguíamos enxergar a entranha de todos os seres, mas esquecemos de olhar para nosso interior. Matávamos as bactérias, os vírus e outros microorganismos sem saber que as doenças eram apenas fruto de nossa visão distorcida da vida. Já não tínhamos tempo para meditar ou para pensar. Nos tornamos a cópia fiel das máquinas que produzíamos em série. Não pensavam! Produziam!
Os males aumentavam e as tecnologias também. A soberba mais ainda! Nos tornamos sábios! Éramos capazes de falar línguas, de tecer pensamentos os mais diversos sobre a Criação, mas continuávamos a ser os mesmos seres insensíveis. Investigávamos todo o nosso planeta e nos maravilhávamos a cada descoberta e ao mesmo tempo usurpávamos nosso lar. Com o desenvolvimento da tecnologia pudemos criar lares mais confortáveis, mas às custas do uso excessivo e desmedido da natureza e começamos loucamente a desenvolver em nossos laboratórios tecnologias que nos ajudassem a viver melhor sem qualquer dependência daqueles recursos naturais, que se esgotavam muito rapidamente. Ao mesmo tempo passávamos a produzir mais seres. Eles não eram concebidos, eram produzidos. Criamos tecnologias que permitiam construir novos seres como nós. O amor não era mais necessário em nosso mundo. Passamos a investigar mais profundamente nossos corpos na busca desesperada da cura para os nossos males. A cada momento pipocava uma nova tecnologia capaz de nos trazer a saúde, a longevidade. Mas começamos a nos perturbar por isto. Como será um mundo sem  natureza? Qual a vantagem de se viver mais num mundo cada vez mais asséptico?
Criamos, então, tecnologias que nos permitiam criar novos seres, mais econômicos, desprovidos de tudo o que nos prejudicava. Seres tão insensíveis quanto nós. Logo perdemos o controle! Nos vimos rodeados por um mundo insensível, onde nossos filhos eram a cópia exata de nós mesmos, onde os outros seres eram apenas uma vaga lembrança dos sábios seres de outrora e onde nós nos tornamos apenas seres dedicados a produzir um mundo cada vez melhor. Nós alijamos a natureza, o Criador, o Amor e a Sabedoria, dentre outras coisas só porque um dia achamos que éramos melhores do que todos. Nos tornamos seres solitários que temíamos olhar para o outro. Éramos treinados a cada dia no exercício exaustivo de não sentir, não tocar, não experimentar. Achávamos que só do lado de fora existiriam explicações para o que éramos. Criamos tecnologias que sabiam explorar nossos tecidos, nossas células, nossos cromossomos, mas não sabíamos mais explorar a nossa alma. Esquecemos de tudo isto!
Nosso mundo morreu há muito tempo e nossas almas agora vagam por aí buscando ajudar a outros seres e mundos onde a tecnologia tornou-se um abuso e não uma aliada.
Cumprimos nosso dever!