domingo, 12 de outubro de 2014

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A Religião guerras e mais divisão

Se olhar para a história, poderá facilmente constatar que a história da Europa é uma sucessão de guerras e violência.
Ao longo da História, poucos foram os períodos de paz, assim como raras foram as épocas de coexistência pacífica entre as diversas culturas de que a Europa é uma encruzilhada.
Descendemos de uma tradição antiga. Uma tradição belicista. Somos o resultado de inúmeros conflitos, guerras imperiais, genocídios e intestinas guerras civis.
E, em quase todos eles, uma força omnipresente é a principal responsável por todas estas mortes: a Religião.


A Religião tem sido, ao longo da História, a mais mortífera arma de destruição massiva. Tem sido a maior causa de morte e destruição. Descartamos este facto, por ir contra tudo em que queremos acreditar. Afinal, não é o objectivo da religião a paz na terra? Contra factos não há argumentos, portanto relegamos estes factos para o nosso subconsciente, suprimindo-os da nossa presença.
Mais pessoas morreram às mãos da igreja do que por qualquer outro motivo.
- "Sim" - dizemos - "admito que a Religião no passado esteve muito longe de ser perfeita, mas hoje as coisas são diferentes".

Serão as coisas diferentes hoje?

Naturalmente, raciocinamos que a Religião é o veículo para alcançarmos um maior desenvolvimento interior, uma maior compreensão dos desígnios do nosso Criador, no sentido de nos transformarmos em pessoas melhores.
Será? Será uma sucessão de guerras, que conhecemos desde os tempos mais remotos e se perpectuam até hoje, o objectivo de uma religião, qualquer que ela seja?


Quando hoje vemos árabes empenhados em matar judeus e vice-versa em nome da religião, não estaremos apenas a testemunhar aquilo que foi sempre a principal característica de uma religião, qualquer religião? E quanto a católicos e protestantes na Irlanda? Ou Muçulmanos e Hindus na Índia? Sunitas e Chiitas no médio oriente? Sempre, sempre, os homens matando-se uns aos outros em nome da Religião.
Será que realmente houve algum progresso na nossa maneira de encarar o mundo, desde as guerras do mundo antigo e que hoje criticamos por terem sido levadas a cabo em nome de uma religião, quando, se olharmos à nossa volta, assistimos à preparação de uma Cruzada do mundo ocidental contra o Islão?
Será que 2000 anos de Cristianismo não melhoraram em nada a nossa natureza?
Somos, realmente, pessoas melhores do que os nossos antepassados longínquos, com os seus rituais primitivos e ignorantes?
Perguntas fundamentais que evitamos fazer. É importante que continuemos a considerar a nossa religião como o meio de nos tornarmos em pessoas "melhores".
Não nos chegou 2000 anos de Cristianismo para constatarmos que não melhorámos em nada?
Será que a nossa religião não é, afinal, a maneira de melhorarmos o mundo, tal como qualquer outra religião não foi nem é maneira de melhorar o mundo?
Contestamos: "sim, pode ter razão, mas a culpa não é da religião, mas da igreja que a deturpou e usou em benefício próprio, quer como instrumento de poder quer como instrumento para a conquista imperial".
Este será, talvez o argumento mais repetido. Sim, a Igreja é a culpada, não a Religião. Afinal, não fez já o Vaticano um acto de contrição relativo a erros que cometeu no passado? Isso significa que algo melhorou, certo?
Errado. Nada melhorou, os tempos é que são outros, e a Igreja procura adaptar-se a eles para manter a sua influência. De facto, a igreja só fez actos de contrição depois de constatar que eram uma boa operação de relações públicas.
Outro facto, igualmente incontestável, é o que que nos países onde a população tem mais devoção religiosa e onde a prática religiosa é generalizada, os problemas sociais são piores e em maior número, assim como a criminalidade é superior. Como este é um facto incontestável suportado pela estatística, limitamo-nos a "esquecermo-nos dele", e persistimos em acreditar que a prática religiosa leva a uma melhor sociedade.
Sentimos necessidade de combater os que, erradamente conduzidos em nome da Religião, nos combatem. Eles são o nosso oposto, defendem tudo o que combatemos e combatem tudo o que defendemos.
Será assim? Afinal, o oposto de um belicista é um pacifista. Se nos envolvemos numa guerra com outros, isso significa que ambos os lados aceitam a guerra como uma solução.
Somos melhores, ou apenas a outra face da mesma moeda? Uma moeda forjada pela Religião e que provou claramente que não é nem nunca será o veículo para a paz no mundo?
Na realidade, vivemos num ciclo vicioso. Para qualquer lugar para onde olhemos, vemos o mesmo cenário: "nós somos religiosos e portanto pela paz, no entanto os outros, que não partilham do nosso desejo de paz, e em nome da sua religião, querem-nos dominar. Logo, estaremos a defender a paz combatendo-os"
Não será fácil de ver a falácia deste raciocínio? Defendemos a paz com a guerra?
Aliás, quantas guerras aconteceram para "acabar com a necessidade da guerra"? Não foi a Primeira Guerra Mundial a "guerra para acabar com todas as guerras", só para se lhe seguir apenas 20 anos depois uma guerra pior, mais geral, mais mortífera e ainda mais abrangente?
O que nos diz a Igreja? De facto, a Igreja tem, ao longo dos tempos, favorecido a guerra como um meio de combater o Mal. Quem é o Mal? Apenas outro povo que acredita estar a lutar pela paz, enganado pelos seus líderes.
Hmmm.... e o que fazem os nossos líderes, se não exactamente a mesma coisa?
Um ciclo vicioso. E, enquanto nos deixarmos enganar pelo que nos dizem, estaremos a contribuir para o manter.
Vejamos um aspecto da questão: acho que concordará comigo em como o desenvolvimento espiritual não se pode processar sem conhecimento. De facto, quanto mais sabemos, mais portas intelectuais se abrem, mais completa será a nossa visão do mundo que nos rodeia, e mais compreensivos nos tornamos para com o que observamos. De facto, encaramos a ignorância como uma "doença" da alma. E com razão.
Olhemos, no entanto, para a Religião. Será que a Religião tem levado o conhecimento aos homens, ou suprimido esse mesmo conhecimento? Quem queimou mais livros na História? Quem defendeu que certo conhecimento não deve ser adquirido? Os ateus? Quem tem travado o progresso da ciência? Os ateus?
A nossa religiosidade vem do facto de constatarmos a necessidade de entendermos o mundo e principalmente de entendermos o propósito das coisas. Afinal, que fazemos nós, para que cá estamos, qual é a "fórmula" para "a boa vida"?
Olhamos para o que não compreendemos e vemos um propósito que não atingimos. Vislumbramos um Criador, capaz de uma compreensão que não podemos, sequer, imaginar. Almejamos em seguir na sua direcção, em tornarmo-nos parte Dele, em adquirirmos uma parte, pelo menos, da compreensão do Criador para que possamos, também nós, atingir um estado intelectual e espiritual superior.

O Mistério da Fé

Dirigimo-nos à Igreja, em busca de uma orientação. É-nos dito para seguirmos uma série de preceitos: o baptismo, a missa e a Sagrada Comunhão. É-nos explicado o significado do Baptismo, um ritual que nos permite entrar no povo de Deus, e é-nos dito que, ao tomarmos a hóstia consagrada, estaremos a cumprir um outro ritual, mantido desde o tempo de Cristo, em que a hóstia representa e se torna no corpo de Cristo Salvador.
Se perguntamos porque é que esses rituais têm esse significado, é-nos apresentado o Mistério da Fé. Só pela fé poderemos na realidade estar comungando do corpo de Cristo. Não pelo conhecimento, não porque exista uma realidade obscura que ainda não compreendemos, e que poderemos compreender ao adquirir o conhecimento necessário, mas pela Fé.
Será a Fé um meio de adquirirmos conhecimento? Não, a Fé é um meio de adquirirmos a convicção de que o ritual adquire um novo significado e se transforma em algo de maravilhoso ou mágico, e que a nossa convicção é suficiente para que a magia aconteça.
Assim, a Fé nada explica. Como seres racionais, temos dificuldade em adquirir a fé. É-nos dito que teremos apenas de nos esforçar continuamente, e que, mesmo que não a consigamos atingir na totalidade, o esforço será suficiente para nos tornarmos em pessoas melhores.
Estranho. É-nos colocada uma série de conceitos que não entendemos, e é-nos apresentado o meio de atingirmos o entendimento, sendo esse meio não a busca do conhecimento mas sim a busca de uma convicção assente na minha vontade em acreditar.
Claro que isso não chega. O elemento mais importante que me é dado é o Livro Sagrado, a Palavra de Deus recolhida num livro que todos possam partilhar: a Bíblia.
Li a Bíblia com uma sensação de fascínio. De facto, a Bíblia é uma história maravilhosa, um enorme manancial de informação àcerca dos nossos antepassados espirituais que viveram em épocas remotas e, claro, da vida de Cristo, um Homem fascinante e poderoso, com uma mensagem intemporal.
Mas não consegui que a leitura da Bíblia me tivesse resolvido o problema da Fé. Não me senti mais perto da paz de espírito, porque não atingia a Fé e, portanto, não conseguia extrair, dos rituais a que assistia, o seu verdadeiro significado.
E, também, ao mesmo tempo, senti um complexo de culpa por não ser capaz de atingir a Fé.
Entretanto, quando pedi conselho sobre o que fazer relativamente à minha incapacidade de atingir a Fé, não obtive resposta. A Fé tem de vir de dentro de mim, através de um processo de autoaperfeiçoamento. O melhor conselho que recebi, de um Padre, foi uma citação de Santo Agostinho: "Se não tens Fé, age como se a tivesses". Explicou-me que a prática dos actos de fé me aproximaria da Fé e, ao mesmo tempo, me tornaria numa pessoa melhor.
A resposta não me satisfez. Se não acredito, finjo que acredito? Participo dos rituais que nada significam para mim, convencido de que essa participação me tornará melhor?
Demorei muitos anos a perceber que o que se passava comigo passava-se, também, com os outros que me rodeavam, e que a prática religiosa se mantinha porque todos persistiam na busca da Fé que não sentiam, "agindo como se a tivessem". E, agindo como se a tivessem, todos sentiam o mesmo complexo de inferioridade, como se eles e só eles não fossem capazes de atingir a Fé.
Afinal, o "mistério da Fé" em nada melhorou a minha natureza. Pelo contrário, levou-me a entender que não só me provocou uma sensação de inferioridade para com o meu semelhante, mas também me levou a persistir num esforço inglório para, pelas minhas acções, superar essa minha deficiência.
Será esse, então, exactamente o propósito da Religião? Ao provocar em cada um de nós um sentimento de inferioridade, tornar-nos, como um todo, numa multidão facilmente controlável e dirigível, assente no nosso sentimento de culpa?
Ao nos colocar um peso que não podemos suportar, o peso do Pecado que não cometemos, mas que herdamos dos nossos antepassados, aliado à culpa de não sermos capazes de atingir a Fé, será que isso não nos leva a colocar o peso da responsabilidade nos outros? Naqueles a quem damos a capacidade de decidir por nós e dirigir a nossa vida?
Sempre em busca de um aperfeiçoamento interior que talvez me levasse a finalmente compreender, procurei, então, o Conhecimento. Recebi avisos no entanto de que o Conhecimento não me levaria à Fé. Estranho conceito, esse. A Fé não depende do conhecimento, e o conhecimento pode até ser um entrave.
Voltei à Bíblia. Algumas coisas se depreendem facilmente da Bíblia. Por exemplo, vemos soluções de continuidade na bíblia relativamente ao pensamento da época. A Lei de Moisés, por exemplo, tem muito de comum com o código de Hamurabi, mais antigo. O próprio estilo literário evolui grandemente, passando por diversas influência estilísticas babilónicas, egípcias, gregas, romanas.
Aqueles que escreveram os diversos livros da Bíblia provêm também de meios sociais diferentes. A Bíblia é um maravilhoso mosaico de estilos, formas de vida, costumes, leis, e fés, um gigantesco documento histórico e ao mesmo tempo um documento descrevendo a evolução do pensamento espiritual ao longo de cerca de 3000 anos.
E, ao longo desses 3000 anos, guerras e mais guerras. Guerras levadas a cabo por homens de Fé, em nome de Deus.
Fiquei curioso sobre outros documentos contemporâneos da Bíblia, as civilizações antigas fascinam-me. Por outro lado, ao conhecer a concepção do mundo da civilização donde os escritos brotaram, poderia mais facilmente compreender esses mesmos escritos. Por exemplo, sem conhecermos a concepção do universo dos antigos, não podemos compreender o Génesis. A menos, claro, que tomemos o caminho da ignorância e interpretemos esses escritos literalmente, o que seria um atentado contra o bom senso de qualquer pessoa minimamente informada.
A nossa cultura é filha da Bíblia, no entanto. Mas a Bíblia é, também, a continuação de uma história ainda mais antiga, é a continuação e evolução de religiões mais antigas e de leis mais antigas.
Quis saber de onde descendia a cultura bíblica. Essa é, talvez, a história mais fascinante de todas, e aquela que tentarei descrever.