quinta-feira, 15 de outubro de 2015

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Físico brasileiro rompe os dogmas e questiona: ''Podemos mover sistemas quânticos com a mente?''


A subida era íngreme e o carro não pegava. Gabriel puxou o freio de mão e girou a chave mais uma vez. Nada. Outro veículo estacionou atrás do seu Fusca e o motorista gritou:

— Sai que tá pegando fogo.




Gabriel olhou para trás e viu o fogaréu no motor. A partir daquele momento, entrou em outra dimensão do espaço e do tempo. Estava em estado de choque. A primeira coisa que fez foi pegar o extintor. Tentou abrir e, sem muito jeito, estragou o lacre. Olhou para os lados e não via ninguém se aproximar para ajudar; as pessoas paravam e olhavam com receio de que o veículo explodiria.

Depois de muito tempo, moradores da região lhe trouxeram três extintores. Antes que pudessem agir, porém, houve novo incêndio. Como o tanque de combustível do Fusca fica na parte da frente, a gasolina, na descida, jorrava pra trás. Nada apagaria o fogo do automóvel.

Enquanto Gabriel se lamentava, a iminente tragédia virou evento entre os habitantes da pequena São Bento do Sapucaí, no interior de São Paulo. Uma turma se juntou para ver o carro pegar fogo sem dar conta do perigo. Gabriel então previu todos os acidentes que poderiam acontecer naquele momento. Bolas de metal em chamas, atropelamentos, batidas, queimaduras, mortes. Desesperado, ensaiou uma reza. “Se existe alguma coisa aí, por favor,se manifeste agora e salve essas pessoas, porque vai dar uma cagada", falou.

Pouco depois da quase oração, o Fusca desceu a ladeira em alta velocidade; o carro fez uma curva e, sozinho, como que por um milagre, estacionou entre as muretas. O fogo apagou e não houve qualquer explosão. Nenhum ferido.

Para Gabriel, o que aconteceu com o Fusca – batizado de Dorotéia por causa da protagonista da peça de Nelson Rodrigues de mesmo nome que, segundo o dono, tinha o mesmo temperamento do veículo – foi de probabilidade baixíssima, algo muito peculiar. "Tudo poderia ter acontecido de pior ali e nada aconteceu", disse. “Não acho que foi evidência de nada extraordinário, mas, no mínimo, isso me deixou com a pulga atrás da orelha.” O fato representou uma virada na vida de Gabriel. Ele estava disposto a investigar se a consciência pode exercer algum tipo de influência na matéria.
Curitibano, jovem, cético e prodígio, Gabriel Guerrer entrou no curso de física da Universidade Federal do Paraná aos 16 anos. Formou-se aos 20, tornou-se mestre aos 22 e doutor aos 25. Hoje, aos 31, ele dá cursos livres de física quântica e faz pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP) sobre a “ontologia das interações consciência-matéria”. Em outras palavras e com alguma licença poética, ele estuda se seria possível alterar a trajetória de um Fusca pela força da mente.

Depois de virar lenda em São Bento, Gabriel voltou para Curitiba, arrumou outro carro e partiu para Belém do Pará. Foi um mês de viagem para pensar no futuro de sua vida – e, por tabela, de sua pesquisa. Gabriel chegou na cidade paraense junto com a Nossa Senhora, na época do Círio de Nazaré, uma das maiores procissões católicas do país, que reúne cerca de duas milhões de pessoas. “Quando cheguei, achei uma merda, não tinha nada a ver com o que estava buscando. Mas você joga um cara bem racional que já estava um pouco chacoalhado no meio dessa festa... Aquele monte de gente e todo mundo em silêncio. De repente, senti uma emoção. Quando vi, eu estava chorando junto com a santa chegando, sentindo aquilo de uma maneira muito intensa”, ele lembra. Na época, sua fé se resumia à ciência e nada mais.

Gabriel agradeceu por ter chegado naquele momento de celebração da fé. Em seguida, viajou para os lençóis maranhenses, onde diz ter entrado em contato com uma natureza selvagem e se questionado sobre qual era sua percepção no mundo. “Percebi que se meu estado de consciência muda, a realidade se transforma”, diz. Ele passou a confiar mais no acaso e na intuição; parou de querer controlar tudo. “Parece que quanto mais na roubada, mais o resgate tá pronto.”

“Percebi que se meu estado de consciência muda, a realidade se transforma”

De volta à rotina na sua cidade natal, Gabriel se debruçou sobre a teoria. Começou a pesquisar sobre fenômenos anomalísticos, parapsicologia, psicologia anomalística, misticismo e questões de consciência para além da sua associação com o cérebro. O primeiro contato do físico com pesquisas sobre fenômenos anômalos e a parapsicologia data da sua infância. “Eu era moleque e apareceu o Padre Quevedo no Fantástico falando ‘isso non ecziste’, e isso me marcou de uma maneira negativa. Sempre tive preconceito com a parapsicologia porque associava com algo de cunho religioso”, recorda.

Durante suas pesquisas, ele descobriu o trabalho do professor Dean Radin, do Institute of Noetic Sciences (IONS), nos Estados Unidos. O experimento de Radin trata da influência da mente no comportamento da matéria à distância, conhecido como micro (por se tratar de sistemas de domínio quântico, muito pequenos) psicocinese. O que o Gabriel quer fazer é replicar o experimento feito nos EUA e tentar entender suas reais capacidades. Ele diz que a ciência clássica considera consciência como produto do cérebro, mas ele acha tal visão equivocada e quer ir além. Para ele, o cérebro é um receptor de consciência, não um gerador: "Na visão atual, a consciência é o fenômeno mais raro do universo, o que essa nova visão faz é convidar a gente a imaginar que consciência pode ser um campo, algo mais fundamental."
Seu pós-doutorado foi aprovado esse ano no instituto de psicologia da USP com apoio do Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais (Interpsi), coordenado pelo Dr. Wellington Zangari, e em parceria com a faculdade de física da mesma universidade. Ele está utilizando um laboratório multiusuário na física para fazer esse teste. No local, fará a montagem de um sistema com um raio laser que atravessa uma fenda dupla sendo observado por uma câmera que mede o padrão de interferência do laser. O próximo passo é colocar pessoas para tentar modificar esse padrão. Serão dois grupos de observadores: meditadores e pessoas sem prática de meditação. O experimento estará isolado e blindado para que não haja nenhuma outra via de troca de informação além do poder da mente.

Gabriel conta que os resultados da pesquisa do professor Radin apontam que o fenômeno de alteração do padrão de interferência existe de um ponto de vista estatístico, mas requer estados modificados de consciência. Traduzindo: o grupo dos meditadores parece conseguir alterar o comportamento da matéria por ter a mente funcionando de forma diferente.

O físico afirma não partir da existência certa do fenômeno em si, mas da pergunta: será? "O que estou propondo é um método experimental empírico de investigar a resposta e não de partir já de um pressuposto”, diz. Ele confessa que considera a possibilidade de que o experimento não dê em nada, mas o importante é tentar encontrar respostas e empurrar a fronteira do desconhecido.

Se der tudo errado, fica tudo como está. Mas e se der certo?

O professor Radin responde que aumentará a confiança nos resultados já observados e encorajará outros pesquisadores a tentar o mesmo experimento. “Se os resultados do Dr. Guerrer obtiverem sucesso, isso será importante porque providenciará evidência adicional a favor de uma interpretação da mecânica quântica”, diz. Para Radin, o sucesso da pesquisa daria mais uma prova de que a nossa mente é capaz de ir muito além do nosso corpo e fazer coisas que jamais imaginamos serem possíveis.

O tema é bastante polêmico e enfrenta muito preconceito na academia. Para grande parte dos críticos, trata-se de pseudociência. Gabriel rebate: “não existe nada mais pseudocientífico do que partir de um dogma”. O físico é bastante crítico aos modelos de pesquisa engessados da ciência. Ele acredita que as teorias ainda são muito baseadas no materialismo e, por causa disso, é impossível querer inovar quando não há interesse de investir em novas possibilidades.

Segundo Gabriel, a desconfiança gerada pelo tema fez com que o seu pedido de bolsa à Fapesp, órgão de fomento à pesquisa, fosse negado. O argumento da instituição foi de que a investigação "não se enquadra na lista de prioridades deles". Gabriel insistiu, mas a Fapesp deu o mesmo parecer. Para ele, é evidente que o governo não tem interesse de financiar esse tipo de estudo. O professor Radin acredita que isso vem da crença de que o senso comum é suficiente para explicar a natureza e as pessoas não querem desafiar as suas crenças.

Por causa dos obstáculos enfrentados, o Gabriel está contando com o interesse do público no seu tema de pesquisa e lançou uma campanha de financiamento coletivo para pagar as despesas do laboratório e bancar um estágio com o professor Radin. “O financiamento cai na rede e se espalha porque as pessoas estão muito curiosas, clamando que se pesquise isso. Ninguém tá falando que tem certeza absoluta – algumas pessoas falam – mas dizem: 'pesquisem isso, por favor, nem que seja pra me falar que não existe nada disso.'”

Otimista, Gabriel acredita que sua estratégia deve funcionar e que os resultados dos seus estudos tendem a ser animadores. E aí, quem sabe, conseguirá explicar como seu pensamento evitou uma catástrofe com a Dorotéia no interior paulista.

Artigo escrito por Letícia Naísa do site [Motherboard]
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